quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O bem que faz ler um livro, em 7 razões comprovadas pela ciência



De fomentar a inteligência a prolongar a esperança média de vida, a leitura só traz benefícios 

O primeiro livro impresso data do séc. XV, mas antes de Cristo já o Homem começara a escrever em folhas de papiro, no Egito. Desde então quase todo o conhecimento ficou gravado em páginas de livros e, nas últimas décadas, as obras publicadas cresceram ainda mais em número, assim como foram surgindo investigações sobre os benefícios da leitura.

Na semana em que a VISÃO vai começar a oferecer um livro por mês com a sua edição imprensa, no âmbito da iniciativa Ler Faz Bem, deixamos-lhe sete benefícios de ler um livro, segundo a ciência.

Alarga o vocabulário

Nenhuma atividade expõe uma pessoa a maior e mais diversificada quantidade de palavras. Mais do que assistir a programas televisivos de conversas, vulgo talk shows, ou infantis, como a "Rua Sésamo", e mais do que uma conversa de amigos, mesmo que sejam todos licenciados, é a leitura que aporta um vocabulário mais alargado, indica um estudo da Universidade da Califórnia.

Desperta a inteligência

A ciência já mostrou que a genética e a educação são fatores que influenciam a inteligência, sendo que ler é uma das principais fontes de conhecimento. Um estudo de 2014 com crianças, realizado por investigadores da Universidade de Edimburgo, na Escócia, e da King's College of London, em Inglaterra, concluiu que a evolução das capacidades de leitura "pode resultar em melhorias nas habilidades cognitivas verbais e não verbais", que "são de vital importância ao longo da vida". E quanto mais cedo se começar, melhor.

Previne doenças

Correr e ir ao ginásio são atividades físicas na moda porque o exercício fortalece o corpo e promove o bem-estar. Mas, por mais variado que seja o treino, nem todos os músculos são trabalhados. Para garantir que nada fica para trás, ler um livro é um bom remédio: inúmeros estudos indicam que a leitura estimula os "músculos" do cérebro e torna-os mais fortes, podendo atuar como fator preventivo em doenças degenerativas como o Alzheimer. Está também provado que pessoas com profissões intelectualmente mais exigentes têm menor propensão para desenvolver patologias ligadas à deterioração do cérebro.

Reduz o stresse

Nem caminhar, nem ouvir música, nem beber um chá. Nada resultou melhor do que ler um livro para acalmar um coração acelerado, segundo uma pesquisa liderada pelo neuropsicólogo britânico David Lewis, da Universidade de Sussex. Bastaram seis minutos de leitura para os níveis de stresse das pessoas que aceitaram participar diminuírem até 68%, contra um máximo de 61% quando tentaram acalmar através da música. Um chá (54%) ou uma caminhada (42%), outras alternativas avaliadas, mostraram-se menos eficazes.

Promove a empatia

Ainda que um livro seja encarado como uma companhia, ler é em si mesmo um ato solitário. Mas entre os seus benefícios encontra-se também a tendência para causar melhor impressão nos outros. Um estudo de dois investigadores holandeses mostrou que a leitura de narrativas ficcionadas influencia características própria da condição humana como a capacidade de criar empatia. E esse é um trunfo importante em qualquer relação, seja pessoal ou profissional.

Combate o envelhecimento do cérebro

Há uma relação direta entre a atividade cognitiva realizada ao longo dos anos e a perda das capacidades cognitivas associadas ao envelhecimento natural, como a memória, o raciocínio ou a perceção. Quanto maior atenção se dedicar à primeira, por exemplo através da leitura de livros, mais lenta se torna a segunda, concluiu um estudo de 2013 publicado no jornal científico Neurology, da Academia Americana de Neurologia.

Aumenta a esperança média de vida

Mais dois anos. Em rigor, 23 meses. Como a VISÃO deu conta em agosto, um estudo da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, revelou que, em média, é esse o tempo que vivem a mais as pessoas que leem um livro 30 minutos por dia, quando comparadas com as que não o fazem. Os investigadores chegaram a esta conclusão ao fim de 12 anos de estudo, publicado no jornal Social Science and Medicine.

Fonte: Visão

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Campanha de valorização à leitura transforma personalidades em personagens de clássicos da literatura

O Sindicato Nacional dos Editores de Livros lança este mês uma campanha para promover a valorização ao livro no Brasil e o papel transformador da leitura na sociedade. Responsável pela organização da Bienal Internacional do Livro Rio há mais de três décadas ao lado da Fagga | GL events Exhibitions, o SNEL escolheu o evento que acontece de 31 de agosto a 10 de setembro no Riocentro para a estreia da ação – a primeira realizada pela entidade em âmbito nacional.

Intitulada “LEIA.SEJA.”, a campanha foi criada pela WMcCann e é estrelada por um time de personalidades do esporte, das artes cênicas, da música e da comunicação, convidadas a incorporar personagens icônicos da literatura brasileira e mundial.

Escolhidos por sua paixão pelos livros e pela leitura, o técnico de vôlei Bernardinho se vestiu de Capitão Rodrigo, de “O tempo e o vento”, de Érico Veríssimo; o publicitário Washington Olivetto e a cantora Baby do Brasil fizeram Visconde de Sabugosa e Emília, da coleção “Reinações de Narizinho”, de Monteiro Lobato; a apresentadora Bela Gil virou a Capitu de “Dom Casmurro”, de Machado de Assis; o ator Cauã Reymond se fantasiou do protagonista de “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes; e o jornalista Pedro Bial aparece como o detetive de “As aventuras de Sherlock Holmes”, de Sir Conan Doyle.











O conceito desenvolvido pela agência parte da ideia de que, quando lemos, nos tornamos parte da história – ler estimula a imaginação, a criatividade e a inspiração; faz rir e chorar, refletir e viajar. Na campanha, as personalidades dão vida aos personagens, lendo trechos dos títulos escolhidos. Assim que fecham os livros, voltam a ser eles mesmos, com o semblante transformado pelo prazer e a reflexão que uma boa leitura oferece.

“O Brasil precisa com urgência de uma revolução de cidadania e ética, e acreditamos que a leitura tem um papel fundamental a desempenhar nessas áreas. A campanha ‘LEIA.SEJA.’ quer mostrar exemplos de pessoas reconhecidas pelo público em geral, que tiveram suas trajetórias marcadas pelos livros de diferentes maneiras”, afirma Marcos da Veiga Pereira, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros. “Nosso desejo é que essa ação reverbere pelos meses seguintes, estimulando o hábito da leitura ao redor do país e propondo uma conscientização sobre o seu valor”, completa.

“Quem trabalha numa atividade que depende de imaginação, criatividade e inspiração, como a publicidade, deveria pagar para criar uma campanha dessas. Foi um privilégio termos sido os escolhidos pelo SNEL.” afirma Washington Olivetto, Chairman e CCO da WMcCann.

O grupo foi fotografado por Miro, um dos mais consagrados fotógrafos brasileiros, em cenários que remetem às obras. As imagens serão utilizadas em anúncios impressos, outdoors, mídia urbana Out Of Home (OOH) e mídia digital, espalhados por diversas partes do país.

O lançamento oficial da campanha acontece na cerimônia de abertura da 18ª Bienal Internacional do Livro do Rio, no Rio de Janeiro, no dia 31 de agosto, quando haverá a transmissão de um filme sobre a campanha.

Ao longo de todo o evento, o público poderá conferir uma exposição das fotos dos personagens, que estarão acompanhadas de vídeos com o making of e depoimentos das personalidades sobre a influência dos livros em suas vidas pessoais e profissionais. Além disso, modelos circularão pelos pavilhões da Bienal com os trajes que foram usados pelas celebridades, divulgando a campanha entre os visitantes.

Fonte: WMcCann

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Escolas substituem dever de casa por tempo de leitura. Funciona?


Distrito escolar nos Estados Unidos adotou a prática com base em indícios de que a leitura livre é melhor do que as tarefas


Alunos de ensino primário em um distrito escolar da Flórida terão uma bem-vinda – mas controversa – nova política quando retornarem para a escola no ano letivo que começa no próximo mês: nada de lição de casa tradicional.

Eles terão que fazer outra coisa para ajudá-los academicamente: ler por 20 minutos todas as noites.

Heidi Maier, nova superintendente do distrito de escolas públicas  do condado de Marion, na Flórida, formado por 42 mil estudantes, disse em uma entrevista que ela tomou a decisão com base em uma pesquisa sólida acerca do que funciona melhor para aumentar o desempenho acadêmico dos alunos.

Isso pode parecer óbvio, mas no mundo da educação, os decisores políticos são notáveis por criar muitas políticas sem saberem e/ou se importarem com as evidências das melhores pesquisas.

A política será aplicada a todos os alunos do primeiro ciclo do ensino fundamental no distrito – cerca de 20 mil – mas não valerá para os demais alunos de ensino fundamental e médio. Maier, uma especialista em leitura que começou a liderar as escolas de Marion em novembro, depois de atuar como professora de licenciatura no College of Central Florida, disse que está baseando sua decisão em uma pesquisa que mostra que lição de casa tradicional nos primeiros anos escolares não melhora o desempenho acadêmico, mas a leitura – e ler em voz alta – sim.

Uma análise muito citada de uma pesquisa sobre o tema, publicada em 2006, constatou que lição de casa no primeiro ciclo do ensino fundamental não contribui para ganhos acadêmicos e tem apenas um efeito moderado para estudantes mais velhos em termos de melhorias de desempenho acadêmico. Apesar da lição de casa ser uma das questões mais controversas na educação básica, não existe nenhum estudo experimental sobre os possíveis efeitos da prática.

Mas especialistas dizem que a pesquisa é clara quanto aos benefícios da leitura diária, com estudantes escolhendo seus próprios livros, lendo em voz alta e escutando um adulto fluente ler para eles.
Maier citou o trabalho de Richard Allington, especialista em aquisição de leitura, que pesquisou e escreveu extensivamente sobre como ensinar os alunos a lerem.

Publicidade
“A qualidade da lição de casa é tão pobre que simplesmente fazer as crianças lerem em substituição a lição de casa, com leituras selecionadas por elas mesmas, é uma alternativa poderosa”, diz Allington. “Talvez alguns tipos de lição de casa possam aumentar os ganhos acadêmicos, mas esse tipo de lição é incomum em escolas dos EUA.”

Maier diz que os estudantes poderiam selecionar o seu próprio material de leitura e teriam ajuda de professores e bibliotecas escolares. Para as crianças que não têm um adulto em casa para ajudá-las a ler – os mesmo alunos que não tinham um adulto em casa para auxiliá-los com lição de casa tradicional – seriam disponibilizados voluntários, audiolivros e outros recursos.

Maier conta que teve um retorno positivo dos pais e professores, muitos dos quais aplaudiram a decisão, mas alguns são céticos. “Nós precisamos deixar a nossa mensagem clara e explicar por que isso é benéfico”, disse, acrescentando que em breve serão realizadas assembleias para os pais.

Lição de casa tem sido uma questão controversa para educadores e famílias por mais de um século. No final do século XIX, um herói da Guerra Civil Americana que se tornou membro do conselho escolar, Francis Walker, acreditava que lição de casa de matemática prejudicava a saúde das crianças e levou o conselho a bani-la como parte de uma febre nacional contra a lição de casa. A Ladies’ Home Journal, uma revista do período voltada para mulheres, chamou a lição de casa de algo “bárbaro” e muitos educadores disseram que essas tarefas causariam condições nervosas e doenças cardíacas em crianças, que se beneficiariam mais em brincar ao ar livre.

A lição de casa, é claro, passou a ter importância na educação – com crianças de 3 e 4 anos agora participando – e, hoje, defensores dizem que ajuda a fixar informações na memória das crianças e as ensina a estabelecer uma rotina.

O distrito de Marion se juntará a um pequeno grupo de escolas e distritos cujos líderes decidiram trocar a lição de casa tradicional por leitura diária nas primeiras séries. Apesar de não terem resultados definitivos, educadores apontam que as notas em avaliações e outras aprendizagens não foram prejudicadas.

Tradução: Andressa Muniz

domingo, 6 de agosto de 2017

E viveram com livros para sempre. Como criar um leitor

Catarina Homem Marques   


De pequenino, torce-se o pepino e também se começa a gostar de livros. Basta que os pais leiam aos bebés – até receitas –, que a leitura se faça em família e que todos se deixem levar pelos livros.

Nem todas as histórias têm de ter um final feliz para serem bonitas, nem sequer as histórias que se contam às crianças, mas o final feliz para os pais que querem que os filhos leiam é que eles comecem mesmo a gostar de livros. E isso, já que não é uma capacidade que nasça com as crianças, é algo que se pode – e deve – trabalhar, como afirmam Pamela Paul e Maria Russo, especialistas em literatura infanto-juvenil do New York Times, num artigo cheio de dicas para as famílias.

Não é apenas um capricho – está mais do que comprovado que os livros contribuem para o desenvolvimento das crianças, e que são também aliados saudáveis para a vida adulta. É por isso que se contar um conto deve mesmo acrescentar um ponto, e mais um ponto, e mais um ponto, até que a leitura seja um elemento de proximidade familiar, uma atividade enriquecedora para todos e, mais importante, um momento feliz.

Os bebés dormem, comem, choram… e gostam de livros


Há aquela imagem dos filmes em que uma mulher grávida embevecida põe os auscultadores em cima da barriga para o filho começar logo a ouvir música. E faz sentido. Os bebés reagem a estímulos sensoriais e esses estímulos contribuem para o desenvolvimento das suas capacidades. O que significa que – embora o bebé possa não mostrar grande entusiasmo quando está a acontecer – também faz sentido que os pais leiam para os filhos desde as primeiras fraldas.

“Como não se nasce leitor, é necessário guiar e acompanhar a criança, ao longo do percurso, desde a descoberta do pré-leitor até à sedimentação da leitura. O mergulho progressivo nos livros constituirá, decerto, um desafio apetecível porque as crianças são, por natureza, curiosas e a curiosidade é motor das aprendizagens ao longo da vida”, explicam os responsáveis pelo Plano Nacional de Leitura ao Observador.

“Em nenhum genoma humano está presente uma inclinação para os livros. O que se sabe é que um leitor descobre-se quando acende o seu fogo interior, que a escritor Laura Esquível comparou a uma caixa de fósforos imaginária." Álvaro Magalhães, autor de livros infantis

Nesta primeira fase, as boas notícias é que os pais nem sequer têm de ler histórias com sentido: podem ler o livro que já estavam a ler antes sobre a II Guerra Mundial, um manual de instruções para alguma máquina que estava a dar trabalho ou a receita de um bolo para o jantar. O importante é o som da voz dos pais, a cadência típica da leitura e que as palavras sejam dirigidas para o bebé.

“Em nenhum genoma humano está presente uma inclinação para os livros. O que se sabe é que um leitor – tal como um escritor, ou um artista em geral – descobre-se quando acende o seu fogo interior, que a escritor Laura Esquível comparou a uma caixa de fósforos imaginária. Segundo ela, cada um de nós traz no interior essa caixa de fósforos e, para acendê-los, é necessário um prato apetitoso, uma companhia agradável, uma canção, uma carícia, uma palavra. Mas a chispa varia de pessoa para pessoa, e cada um tem de descobrir os seus detonadores… a tempo, ou a caixa de fósforos humedece e nunca poderá acender um único fósforo”, diz Álvaro Magalhães, autor de dezenas de livros para crianças que já foi integrado na lista de honra do prémio internacional Hans Christian Andersen.

Os outros sentidos também podem ajudar nesta detonação. Mesmo que o bebé interrompa a leitura para puxar as páginas ou comece a fazer sons em resposta aos sons que está a ouvir, não faz mal. Este é o tipo de leitura em que os pais têm de estar disponíveis para a interrupção. E até há livros cheios de texturas que podem ajudar. Tal como ajuda ter tempo e paciência.

“O ouro da literatura sempre foi o tempo, e é cada vez mais isso. Por isso é que a nossa livraria é afastada de um local de passagem. Se é para virem até aqui, é mesmo para escapar à rotina. E se há uma obrigação que os pais têm, desde que os filhos são muito pequenos, é de cuidar da curiosidade dos filhos, e a leitura faz parte disso. Só que a leitura não se faz apenas sentado com um livro na mão. Tecnicamente, temos de transformar a leitura num jogo que se realiza em diferentes dimensões, que é um universo comum em que a palavra abre espaço para dança, música, movimento e tudo o que quisermos”, explica Mafalda Milhões, responsável pela livraria Bichinho de Conto, em Óbidos, a primeira que abriu em Portugal dedicada apenas ao livro infanto-juvenil.


© Getty Images/iStockphoto 

A leitura é para ocupar a casa toda. E a família.



Para criar um leitor é preciso ser um leitor. E isto não implica que o serão da família tenha de incluir sempre um debate profundo sobre literatura russa ou sobre poesia japonesa do século XIX. Acontece apenas que, ao partilhar leituras com as crianças desde cedo, ao tornar-se uma atividade que se faz em conjunto – o que acontece naturalmente quando as crianças ainda não sabem ler sozinhas –, os livros começam a ficar associados à voz dos pais e a um sentimento positivo de proximidade.

“Infelizmente, fala-se muito em leitura sem falar em comunicação. E nisso a família tem um poder que não tem a escola, é a melhor incubadora para um leitor, para abrir horizontes e fazer ligações”, diz Mafalda Milhões.

Há pequenos truques para ir expandindo esta sensação e para a prolongar nas diferentes fases de crescimento da criança: em vez de ler para a criança só à noite, antes de deitar, é importante arranjar tempo para ler em outras alturas do dia – e, milagre, isso vai fazer também com que a criança abrande; transformar a leitura numa atividade interessante para as duas partes – nem tem de ler sempre livros que deteste, nem a criança tem de gostar das caretas que os pais fazem ao ler e pode interromper a qualquer momento; não fazer da leitura uma obrigação ou um castigo, mas sim um momento de brincadeira e alegria; ter livros espalhados pela casa, em vários sítios, que possam a qualquer momento transformar-se num ponto de interesse e num fator de distração; ir associando os livros e a leitura independente a um ato de maturidade – também dando o exemplo – sem provocar uma quebra abrupta na possibilidade de se continuar a fazer a leitura em conjunto.

“Há quem leia porque aos dez anos teve uma pneumonia e para matar as horas de aborrecimento não lhe ocorreu melhor coisa do que ler Stevenson. Até hoje. O curioso é que todas as pessoas, sejam ou não leitoras, podem falar da sua genealogia como leitores ou não-leitores, sempre com referência a uma contingência ou um mero acaso. Ou seja, o ato de ler não nasceu quase nunca de um ato puro de vontade ou da falta dessa vontade. Foi sempre a resposta a uma situação. Convém então repeti-lo: chega-se à leitura graças a um golpe de dados, quer dizer, a encontros e desencontros ocasionais”, explica Álvaro Magalhães.

Truques para incentivar a leitura nos mais novos

  • Ler em diferentes alturas do dia, para além da hora de deitar;
  • Transformar a leitura numa atividade interessante para as duas partes;
  • Não fazer da leitura uma obrigação ou um castigo, mas sim um momento de brincadeira e alegria;
  • Ter livros espalhados pela casa.
E se os pais não são leitores, porque perderam o interesse pelos livros ou porque nunca encontraram esse golpe de dados, podem ser as crianças a servir de inspiração. “Há algumas famílias que não sabem mesmo fazer isto, mas podem aproveitar para seguir as crianças. Os pais têm de ter coragem para essa predisposição, para aprender isso com os filhos”, diz Mafalda Milhões. Uma ideia que Álvaro Magalhães completa: “No meu livro O Brincador há uma epígrafe que é todo um programa de vida, dois versos de Carlos Queiroz: ‘Menino que brincas no jardim / Tu sim, podias ser um Mestre de mim.’ Eles afirmam a minha fé numa inteligência infantil ainda não contaminada nem corrompida pelo mundo. Um dia perguntaram a Stanislavsky como se fazia teatro para crianças e ele respondeu: ‘Como se faz teatro para adultos, mas melhor’. É o que tento fazer, pois, tal como a concebo, a literatura para os mais novos é uma arte maior. Para comunicar com eles é preciso elevarmo-nos, e não o contrário – traduzirmo-nos, imbecilizarmo-nos, infantilizarmo-nos, que é o que mais se faz, infelizmente.”

Os livros também fazem coisas


Os livros fazem coisas. E não são só aqueles livros que têm pássaros que saltam em formato pop up, que emitem sons ou que servem, numa pilha, para levantar o monitor de um computador. Os livros são histórias, e são imagens, e levantam questões que se podem associar depois a outras actividades. “Se a criança gostou muito de um livro sobre animais, se calhar era divertido a seguir irem todos ao Jardim Zoológico com o livro”, exemplifica Mafalda Milhões.

Além disso, os livros são também uma desculpa para ir à livraria do bairro, ou para entrar numa biblioteca. Há cada vez mais atividades que se podem encontrar em diferentes livrarias: desde oficinas de ilustração, como aquelas que acontecem regularmente na It’s a Book, em Lisboa, a atividades pelo bairro ou oficinas de leitura entre avós e netos, como são comuns na Baobá, em Campo de Ourique, passando pela simples possibilidade de andar de baloiço ou ouvir uma história no grande quintal da Bichinho de Conto. É importante que a família fique atenta à agenda das livrarias nas proximidades ou tire um tempo para ir a uma que fique mais distante.

Na Bichinho de Conto, por exemplo, Mafalda Milhões sente que muitas vezes o espaço se transforma “no quintal da avó que muitas crianças já não têm isso”. “As crianças vêm aqui para ler, mas também para andar de baloiço, para brincar com as cabras, e isso tem tudo de literatura, não tem? Isto antes era só uma sensação que eu tinha, mas agora já é conhecimento técnico ao fim de muitos anos de trabalho: na leitura, o mais importante é a relação. Nós conhecemos os nossos leitores desde pequenos e agora vejo-os na faculdade e continuamos a fazer parte da vida uns dos outros.” É essa a relação que se pode criar com um livreiro, que pode ser importante a ajudar na escolha dos livros, e que se pode integrar nesta relação que se tem – ou não – com os livros.

“O PNL e outros programas institucionais da leitura só se preocupam com números e estatísticas. Do que precisamos é de leitores que contagiem leitores e sejam capazes de transmitir a sua paixão. Pequenas comunidades, círculos de leitura, clubes de leitores – que estão agora mais ativos com as redes sociais –, pessoas que partilhem e propaguem a sua paixão e a sua felicidade. Só quem verdadeiramente sente esse prazer e essa paixão a pode comunicar aos outros”, diz Álvaro Magalhães.

Outra coisa que os livros podem fazer é transformar-se numa prenda divertida para dar aos amigos que fazem anos, uma prenda que se pode escolher em família e que depois se pode aproveitar em conjunto com o aniversariante. E podem também ser uma coleção: as crianças gostam naturalmente de colecionar, e vão adorar ter uma prateleira ou uma estante só delas para irem arrumando os seus livros.

Quem tem medo dos livros maus?


Quem tem filhos pequenos e não tem uma música como “Despacito” em grande conta artística, já teve de morder a língua algumas vezes por ver como a criança dança ao ritmo do refrão e até já sabe alguns dos versos. Com os livros é um bocado a mesma coisa: se eles gostam de histórias com carrinhas que falam ou estão mais interessados em bandas-desenhadas da Marvel, não faz mal. Que atire a primeira pedra quem não começou com a Turma da Mônica antes de chegar a um Crime e Castigo.

Isto não significa que os pais não devem ir abrindo caminho para leituras diferentes, mostrando outras coisas, e que não devam – devem mesmo – gostar dos livros que estão a ler com os filhos ou a comprar para os filhos, mas também não devem ignorar ou diminuir os gostos da criança. E não devem ficar magoados se os filhos não mostrarem grande interesse por aquele clássico da literatura infantil que mudou a sua vida. Não é nada de pessoal.

“Não se conhece até à data que um livro da Patrulha Pata tenha feito mal a alguma criança. O que faz mal é se só houver isso. Claro que há narrativas mais inteligentes, mas é tudo uma questão de gramática de afetos. Pode ser um livro da Anita ou da Marvel, são livros que já formaram muitos leitores. O que é mesmo um erro é uma criança ler só livros e depois não ler as placas da cidade, não ler o que está no chão, não ler o que está no ar. A leitura tem é de estar em todo o lado e existir para muscular aquilo que é a nossa identidade”, acredita Mafalda Milhões.

Além disso, cada leitor é um leitor – caso contrário, todos os adultos tinham de adorar apenas o Ulisses ou Em Busca do Tempo Perdido. Com as crianças é igual. Algumas vão gostar mais de manga, outras vão preferir novelas gráficas, e há outras que só se vão interessar por não-ficção, ou seja, por aqueles livros sobre curiosidades científicas. E o que é bom é que é possível encontrar livros bons dentro de todos os géneros, e que normalmente essas fases evoluem para outras. Além de haver cada vez mais opções para garantir que se expõe as crianças à diversidade, e não apenas às histórias que confirmam aquilo que ela já sabe.

De acordo com o Plano Nacional de Leitura, esse é um dos trabalhos que cabe a um organismo estatal na altura de sugerir livros às escolas: “A sugestão de leituras do PNL assenta na ideia de que, sendo os gostos dos leitores, por natureza, muito díspares, a variedade de oferta tem de ser garantida. A diversidade permite orientar as escolhas e pautá-las por um grau progressivo de exigência. O PNL está consciente de que o mais importante e desejável é Ler+ e melhor, com competência e fluência, de todas as maneiras, em todos os suportes, tirando o máximo partido dessas leituras.”

Seja como for que se faz a lista, ou como se reúnem as sugestões de leitura, o importante é começar a virar as páginas. O resto vai acontecendo e vai seguindo para outros caminhos, como em qualquer boa história.

Fonte: Observador



quarta-feira, 26 de julho de 2017

Parque Buracão inaugura Biblioteca Aberta

O projeto Biblioteca Aberta disponibiliza livros gratuitos à população

A Secretaria Municipal do Meio Ambiente em parceria com o AFS Intercultura Brasil, organização voluntária internacional de intercâmbio sem fins lucrativos, inaugurou nesta terça-feira, 25, às 10h, o projeto Biblioteca Aberta no Parque Buracão. 

O projeto tem a iniciativa dos voluntários da AFS com o apoio da Prefeitura e visa oferecer um espaço, na área externa da Secretaria do Meio Ambiente, para que a população possa retirar livros para leitura e devolvê-los posteriormente, com o objetivo de incentivar a comunidade ao hábito diário da leitura. 

A inauguração da Biblioteca contou com a presença dos escritores Caio Russo, Priscila Grecco, Totonha Lobo, Capitão Lincoln, voluntários da Organização AFS, representantes das escolas estaduais, entre outros envolvidos. 

Confira as fotos da inauguração: 



  Fonte: AssisCity